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As marcas do caminho

E essas marcas que eu guardo em meus olhos, São de chorar os dias que não pude rir. E que provaram a inquietude desses corpos, Que eu me lancei quando não pude amar a mim. E essas linhas que contornam o meu colo, São os trocados que a vida me cobrou, Por confiar o meu sorriso àquela moça, Que na basura se desfez do meu amor. Esse olhar que perde o foco muito fácil, É pra lembrar que confiável é se enxergar, Sentir a dor te modelar até os ossos, E a lembrança se tornar uma página. Esse sair é pra voltar dentro de si, E resgatar o que de bom em ti ficou, Não só de vícios se constrói um novo eu, Não só com amor esse sorriso se gastou. Se tenho o ar que ainda quer ficar aqui, Se o sol se pôs e renasceu pra me tocar, Trouxe calor para me recordar que, Nem só de luz é que se sente a vida. Se outras marcas me atropelam o coração, E ele pulsa como se fosse curar, Eu pego as linhas e mudo minha direção, Onde os meus olhos possam, de novo, se deslumbrar.

Cíclica

Me reinvindicou aos excessos uma liberdade Como se meu beijo fosse uma cela em teus vôos Indo e voltando entre o não e o sim Como se meu calor fosse a razão de teu entojo E repetia, como mantra, a partida Que eu entendi na primeira vez que avissastes E me cobri de seguros o coração Para não sentir cada vez que me deixastes Quando o seu olhar em mim afundou Embaralhou o que significava razão e emoção E no seu jogo de cartas em que sou coringa Salvou-me a alma que vagava indistinta Ela é rainha de sete copas, com sete chaves dos corações perdidos em seu ir e vir E eu, uma ilha flutuante, vagando no pacífico dos sons que me fez sentir É música É cura É desatino É im-posse É noite É lua É toda uma sorte Que como trevo, me deu quatro esperanças De uma semente que não quis brotar De um sonho que não consigo esquecer De um sussurro que me fez levitar Ah que saber, por certo, que o tempo Ensina o jogo, ensina a plantar, ensina a colher E eu nem tenho as ferramen...

A tinta branca

O racismo é tinta e cada gota que sai do tinteiro mancha, sangra, corta é uma plástica forçada uma prática normalizada um carimbo Eles são o staff que controlam as entradas te dão um crachá de aceito se você ficar calado te dão a solidão e a recusa se você reclamar dos fatos eu mostro dados eu narro histórias eu abro minha ferida e mostro as provas como Jesus fez com Tomé eles veem e não creem eles fazem e mentem repetem e não sentem que o problema que criaram é um monstro com muitos braços que expulsam, expurgam, perseguem que abusam, anulam e cegam nos tratam como escravos, mas eu os vejo como aqueles três macacos: não quero ver não quero escutar não quero falar fala só se for pra te humilhar "eu mudei de rua pela minha segurança" porque lá no fundo a desconfiança nasceu do ensinamento repassado pelos seus pais que também expulsaram, expurgaram e anularam de pai pra filho de pobre pra rico e de branco pintaram Cris...

Exílio

Era só um desejo Depois, um aviso Junto com o medo chegou a verdade E com a inspiração a constatação - Eles não estão brincando, nunca estiveram Sempre se articularam Espreitaram e estreitaram os laços Que eu choro por ter que romper Não vou ver minha sobrinha crescer Não vou realizar o sonho de ir para a Bahia Talvez eu não verei algumas mortes Talvez eu tirarei a minha vida Parte difícil do dia é estar acordada Parte ruim é estar aqui Parte que querem é que eu resista Parte de mim pede: não se arrisca Eles não tiram o alvo de nós Eles expulsam, expurgam, comungam De bem, mas do bem olhando a quem se dá E sangue nas mãos é só mais uma metáfora Eles tem sangue no olhar Eles tem sangue na fala Eles tem sangue do meu ventre, meu amor, minha cor Não dá pra ficar Eu penso e nego Leio uma notícia e me despeço Saio de casa e me escondo Cuidado, chica, esse país já não é o seu mundo.

Sobre a gratidão

Se a ingratidão é uma ofensa Pese a ela que os meus ouvidos estejam mudos Pois de tudo que possuo Tudo tenho dado E se me chega a aurora em boaventurança ao final de minha caminhada Se me tomam os pés o amor de todas as formas Se me acolhe o lar de toda impureza E me abriga o ser de toda liberdade Em mim, a ingratidão se recolhe em sua débil (sentido en español) ausência de sentido Força que aqui, não cogito E volta pela mesma porta de gratidão que ela não pode derrubar. Mad. L Eparrei.

Conto científico

Conceição não pode entrar na Academia Cláudia, nem arrastada Marielle entrou, mas foi alvejada A gente vê o nosso ensejo em combustão Repetição tecida com linha branca, pra ser neutro Não dá pra escolher o lado da rua quando se está sempre nua de direitos E Conceição escreveu outro livro pra preto Tem estória e pesadelo Parece a Academia que ela não pode entrar Era muita história pra recontar Tem muita Cláudia na Academia Mas não em vida, só estatística No conto científico também vamos de camburão Na folha forma, no fundo preta, na prática caixão. M ad.L 03-09-2018

Aquário

Eu saí da margem, da beira da lagoa, para conhecer o mar Com os pés fincados e moldados da argila, eu, peixe em cativeiro, quis sentir a porosidade da areia em minha pele. Dei assas aos meus pés para ir mais longe, onde seria Pacífico desaguar meu eu de água doce Fiz barragem na saudade Que de conter, deixou seco o coração Agora eu, peixe fora d'água, me desando entre estar aqui e ser lá Talvez, do pranto, também se fizeram desidratados os meus sonhos E se não mergulho, não saberei se já aprendi a não me afogar Foi um passo longo? Nada que eu, presa nesse aquário, não possa reinventar

8 ou 80

Tenho estado com a autoestima sendo uma contramão Eu sou um espelho que reflete a sua emoção E tudo que me queiras de ruim, contigo vai voltar E tudo que me tens de bom, vou te gratificar O problema é que eu tenho estado na fronteira da desilusão Eu tenho estado sempre a frente desse exército de acusação E eu mudo tanto pra caber que já nem sei quem sou Acho que nessa estrada árdua eu perdi o andor Me apertou o tamanho desse fardo Me agrediu o amor me fez culpado Se chora, pensarás que sente culpa Só te cala nessa angústia que o dia já se encerrou Só te cala nesse angústia onde a razão se ocultou Mad. L (2018)
e aconselhou: - Talvez você devesse mudar a forma que você se mostra para o mundo' no que respondeu afirmando-lhe o signo - Talvez o mundo (deve)sse mudar a forma como me vê.

Corrida do caos

Meu país não lê Nem o que escreveram no passado e nem o que escrevem sobre o futuro É que sangue dá pra limpar no presente E acaba que só quem sentiu, se lembra como a cicatriz existiu Meu país que agora entendo o enredo Constrói personagens heroicos na base do analfabetismo do povo Que entendeu o conteúdo do Fundamental Necessário só pra cumprir tabela no colegial Meu país que ama o esporte Chutou para o canto a história Fazendo gol contra o seu próprio patrimônio Mas é mais fácil, assim, manter a estratégia Quando o adversário não conhece as regras E de um lado a torcida se desespera pra abastecer a corrida do caos Vendo seus titulares reservarem os seus direitos por 20 anos Vendo se o "grande juiz" errou por engano Mas algo tenho que concordar Que nem se tivéssemos árbitro de vídeo eu iria acreditar Que a solução para o problema da leitura seria intervenção militar Meu país não lê o que não o atinge Não quer saber sobre o time rival Pena que política dura mais que...